Dr. Carlos Baraldi

Cirurgia Ortognática e Apneia do Sono: Quando o Diagnóstico Correto Muda o Tratamento

A apneia obstrutiva do sono é uma condição em que a via aérea sofre obstruções repetidas durante o sono, prejudicando a oxigenação, a qualidade do descanso e a saúde geral do paciente.

Em muitos casos, o tratamento envolve CPAP, dispositivos intraorais, perda de peso, mudanças comportamentais ou cirurgias da via aérea.

Mas existe um grupo específico de pacientes em que a causa do problema não está apenas no “sono” ou no “ronco”: está também na anatomia da face.

Quando há deficiência ou retrusão dos maxilares — especialmente da mandíbula — o espaço da via aérea superior pode ficar reduzido. Nesses casos, a cirurgia ortognática, especialmente o avanço maxilomandibular, pode ser considerada como parte de uma estratégia terapêutica para apneia obstrutiva do sono.

Sou Dr Carlos Baraldi, cirurgião bucomaxilofacial em Porto Alegre, e neste artigo explico por que o diagnóstico correto é essencial antes de indicar qualquer tratamento cirúrgico para apneia do sono.

Apneia do sono não tem uma única causa

Essa diferença muda completamente o planejamento.

Um paciente com apneia causada predominantemente por fatores relacionados ao peso corporal pode ter um caminho terapêutico diferente de um paciente com mandíbula retraída, maxila pouco projetada e redução estrutural da via aérea superior.

Diagnóstico correto: por que exames objetivos são essenciais

O diagnóstico da apneia deve ser feito com avaliação clínica e exames adequados, como polissonografia ou testes domiciliares validados, quando indicados.

Diretrizes da American Academy of Sleep Medicine (AASM) reforçam que questionários e avaliação clínica isolada não devem substituir exames objetivos para diagnóstico de apneia obstrutiva do sono em adultos.

Entre os exames e informações mais importantes estão:

  • polissonografia;
  • teste domiciliar de apneia, quando indicado;
  • índice de apneia-hipopneia;
  • avaliação clínica facial e intraoral;
  • tomografia;
  • análise cefalométrica;
  • avaliação da via aérea superior;
  • histórico de uso ou intolerância ao CPAP;
  • avaliação médica do sono, quando necessária.

O diagnóstico correto evita que se trate de forma simplificada um problema que frequentemente é multifatorial.

Quando a cirurgia ortognática entra na discussão?

A cirurgia ortognática pode ser considerada quando existe uma relação clara entre a apneia do sono e a posição dos ossos da face.

Isso pode ocorrer em pacientes com:

  • mandíbula pequena ou retraída;
  • maxila pouco projetada;
  • perfil facial retrusivo;
  • mordida alterada associada à deficiência esquelética;
  • redução do espaço da via aérea superior documentada em exames;
  • histórico de tratamento ortodôntico compensatório;
  • apneia persistente apesar de outras terapias;
  • dificuldade de adaptação ao CPAP;
  • uso de dispositivo intraoral sem controle satisfatório dos sintomas.

Nesses casos, a cirurgia não busca apenas “melhorar o ronco”. O objetivo é reposicionar estruturas ósseas que influenciam diretamente o espaço respiratório.

Via aérea estreita em um paciente com anomalia da face – retrognatia

Para uma visão mais ampla do procedimento, leia também o conteúdo sobre cirurgia ortognática em Porto Alegre Cirurgia ortognática em Porto Alegre: qualidade, segurança e hospitais certificados.

Avanço maxilomandibular: uma correção estrutural

O avanço maxilomandibular é uma forma de cirurgia ortognática em que maxila e mandíbula são reposicionadas para frente.

Após avanço maxilomandibular, observa-se ampliação e melhor sustentação da via aérea superior em pacientes selecionados.

Em alguns casos, esse movimento pode ser associado à rotação anti-horária do complexo maxilomandibular, especialmente quando o padrão facial, a mordida e o plano oclusal indicam esse tipo de planejamento.

Do ponto de vista respiratório, o avanço dos maxilares pode:

  • ampliar o espaço da via aérea superior;
  • melhorar a relação entre língua, palato mole e parede posterior da faringe;
  • tensionar tecidos moles relacionados à obstrução;
  • modificar a geometria da via aérea;
  • facilitar o fluxo de ar durante o sono.

Essa é a diferença central entre uma abordagem anatômica e terapias que funcionam apenas enquanto estão em uso.

O que dizem as revisões sistemáticas?

A literatura científica tem reforçado o papel do avanço maxilomandibular e da cirurgia ortognática em pacientes selecionados com apneia obstrutiva do sono.

Uma meta-análise publicada no JAMA Otolaryngology – Head & Neck Surgery avaliou o avanço maxilomandibular no tratamento da apneia obstrutiva do sono e descreveu redução importante do índice de apneia-hipopneia, com taxas expressivas de sucesso cirúrgico em pacientes selecionados.

Mais recentemente, uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 no Journal of Oral Rehabilitation avaliou a eficácia da cirurgia ortognática em pacientes com síndrome da apneia obstrutiva do sono. O estudo encontrou redução significativa do índice de apneia-hipopneia após a cirurgia, sugerindo melhora objetiva dos parâmetros respiratórios.

Ao mesmo tempo, os autores destacaram que a melhora da sonolência subjetiva não foi estatisticamente significativa e que a alta heterogeneidade dos estudos exige avaliação individualizada.

Outra revisão sistemática e meta-análise de 2025, focada em avanço maxilomandibular, concluiu que o procedimento apresenta alta taxa de sucesso entre os tratamentos cirúrgicos para apneia obstrutiva do sono. O estudo também reforça a necessidade de discutir possíveis sequelas, como dormência facial inferior, durante o consentimento pré-operatório.

Em resumo: a cirurgia pode ser muito efetiva, mas não deve ser indicada de forma automática. Ela depende do diagnóstico anatômico correto.

Cirurgia ortognática, CPAP e dispositivos intraorais: qual a diferença?

O CPAP é um tratamento consagrado para apneia obstrutiva do sono. Ele atua mantendo pressão positiva na via aérea durante o sono.

Os dispositivos intraorais, por sua vez, podem avançar a mandíbula durante o uso noturno e são indicados em situações específicas, especialmente em casos leves a moderados ou quando o paciente não tolera o CPAP, sempre com acompanhamento especializado.

A diferença central é que CPAP e dispositivos intraorais funcionam durante o uso.

A cirurgia ortognática, quando bem indicada, busca uma correção anatômica mais permanente, porque reposiciona estruturas ósseas que participam da obstrução.

Isso não significa que a cirurgia substitua todas as outras terapias, nem que seja indicada para todos os pacientes. Significa que, em alguns casos, a solução pode estar menos no “aparelho” e mais na estrutura facial que sustenta a via aérea.

Por que o diagnóstico correto é tão importante?

Indicar cirurgia ortognática para apneia exige integrar várias informações.

Na avaliação facial e odontológica, são considerados:

  • padrão da mordida;
  • posição da maxila e da mandíbula;
  • perfil facial;
  • análise cefalométrica;
  • tomografia;
  • espaço da via aérea superior;
  • histórico ortodôntico;
  • presença de compensações dentárias.

Na avaliação respiratória, são importantes:

  • diagnóstico objetivo da apneia;
  • índice de apneia-hipopneia;
  • sintomas relatados pelo paciente;
  • histórico de ronco;
  • tolerância ou intolerância ao CPAP;
  • resposta a dispositivos intraorais, quando utilizados.

Na avaliação multidisciplinar, podem participar:

  • médico do sono;
  • otorrinolaringologista;
  • ortodontista;
  • cirurgião bucomaxilofacial;
  • clínico assistente, quando necessário.

Sem esse conjunto, corre-se o risco de tratar parcialmente um problema complexo.

Segundo o Dr Baraldi, a cirurgia ortognática para apneia deve ser vista como uma estratégia de reconstrução funcional da via aérea em pacientes selecionados — e não como promessa universal de cura.

Planejamento em Porto Alegre

Em Porto Alegre, o planejamento da cirurgia ortognática para pacientes com apneia do sono deve considerar o aspecto respiratório, a mordida, a estética facial, a estabilidade ortodôntica e a segurança hospitalar.

Na prática do Dr Baraldi, esse processo pode envolver:

  • avaliação clínica inicial;
  • análise de exames enviados digitalmente;
  • integração com ortodontista;
  • discussão com médicos envolvidos no cuidado do sono;
  • planejamento digital;
  • cirurgia em ambiente hospitalar;
  • acompanhamento pós-operatório estruturado.

Esse modelo é importante para pacientes de Porto Alegre e também para aqueles que vêm de outras cidades do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná ou de São Paulo em busca de planejamento especializado.

Para complementar a leitura, assista também ao vídeo em que explico a relação entre cirurgia ortognática e apneia do sono

Quando procurar avaliação?

Vale considerar uma avaliação com cirurgião bucomaxilofacial quando o paciente apresenta:

  • apneia do sono diagnosticada;
  • mandíbula ou maxila retraídas;
  • dificuldade de adaptação ao CPAP;
  • uso prolongado de dispositivo intraoral sem controle satisfatório;
  • alteração de mordida associada;
  • queixa estética facial compatível com deficiência maxilomandibular;
  • indicação ortodôntica de caso cirúrgico;
  • suspeita de componente anatômico importante na obstrução da via aérea.

A avaliação não significa que a cirurgia será indicada. Significa apenas que o caso será estudado com a profundidade necessária.

Considerações finais

A cirurgia ortognática pode ter papel importante no tratamento da apneia obstrutiva do sono quando a causa do problema envolve a anatomia dos maxilares e a redução do espaço da via aérea superior.

O ponto central é o diagnóstico.

A pergunta não é apenas se o paciente tem apneia, mas se existe uma alteração estrutural passível de correção cirúrgica.

Quando essa relação está presente, o avanço maxilomandibular — com ou sem rotação anti-horária, conforme o caso — pode oferecer uma abordagem mais anatômica e duradoura do que terapias dependentes de uso contínuo.

O cuidado ideal combina ciência, planejamento, segurança hospitalar e decisão compartilhada.

Sobre o autor

Dr Carlos Baraldi
Cirurgião Bucomaxilofacial – Porto Alegre
Professor universitário
Atuação focada em cirurgia ortognática, cirurgia oral e maxilofacial hospitalar, sedação e anestesia geral

Website: www.drbaraldi.com.br
Contato: Clique para consultas

Endereço: Florêncio Ygartua 422, Porto Alegre

Perguntas frequentes sobre cirurgia ortognática e apneia do sono

Cirurgia ortognática pode tratar apneia do sono?

Em casos selecionados, sim. Quando a apneia está associada à posição dos maxilares e à redução do espaço da via aérea superior, a cirurgia ortognática pode contribuir para melhora objetiva dos parâmetros respiratórios. No entanto, a indicação depende de diagnóstico preciso e avaliação multidisciplinar.

O que é avanço maxilomandibular?

É uma cirurgia em que a maxila e a mandíbula são reposicionados junto com os dentes superiores e inferiores, ampliando o espaço da via aérea superior e melhorando a relação funcional da face. Pode ser associada à rotação anti-horária do complexo maxilomandibular, conforme o planejamento individual.

A cirurgia ortognática substitui o CPAP?

Não necessariamente. O CPAP continua sendo um tratamento consagrado para apneia obstrutiva do sono. A cirurgia pode ser considerada em pacientes selecionados, especialmente quando existe componente anatômico importante ou dificuldade de adaptação a terapias de uso contínuo.

A correção cirúrgica é mais permanente?

A cirurgia ortognática promove uma alteração anatômica estável nos maxilares, o que a diferencia de dispositivos que atuam apenas durante o uso. Ainda assim, os resultados dependem de diagnóstico correto, planejamento individualizado e acompanhamento a longo prazo.

Todo paciente com apneia deve fazer cirurgia ortognática?

Não. A apneia do sono é multifatorial. A cirurgia só deve ser considerada quando avaliação clínica e exames mostram que a estrutura maxilomandibular participa de forma relevante da obstrução da via aérea.

Quais são os riscos da cirurgia ortognática?

Como toda cirurgia, existem riscos potenciais. Entre os pontos discutidos na avaliação estão alteração temporária ou persistente de sensibilidade do queixo e dos lábios, inchaço pós-operatório, sangramento, infecção, necessidade de acompanhamento ortodôntico e estabilidade a longo prazo. A cirurgia deve ser realizada por cirurgião experiente, em ambiente hospitalar e com planejamento adequado.

Quanto tempo leva a recuperação?

A recuperação varia conforme o tipo de cirurgia e as características do paciente. Em geral, as primeiras 2 semanas exigem maior cuidado com alimentação, repouso relativo, higiene oral e acompanhamento. A recuperação óssea e funcional ocorre de forma progressiva ao longo dos meses. As restrições diminuem a partir de 4 semanas e praticamente não existem após 6 semanas.

Como saber se sou candidato?

A melhor forma é realizar uma avaliação com cirurgião bucomaxilofacial. Durante a consulta, serão considerados exame clínico, mordida, tomografia, polissonografia, histórico médico e tratamentos já tentados para apneia do sono.

 

Tem apneia do sono e gostaria de saber se há componente estrutural?

Agende uma avaliação com Dr Carlos Baraldi para diagnóstico preciso e planejamento individualizado.

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Referências

  1. Kapur VK, et al. Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea: An American Academy of Sleep Medicine Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine. 2017.
  2. Zaghi S, et al. Maxillomandibular Advancement for Treatment of Obstructive Sleep Apnea: A Meta-analysis. JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery. 2016.
  3. Camacho M, et al. Long-term Results for Maxillomandibular Advancement to Treat Obstructive Sleep Apnea: A Meta-analysis. Otolaryngology–Head and Neck Surgery. 2019.
  4. Ali SA, et al. Efficacy of Orthognathic Surgery in OSAS Patients: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of Oral Rehabilitation. 2025.
  5. Walker A, et al. Maxillomandibular Advancement Safety and Effectiveness in Obstructive Sleep Apnea: Systematic Review and Meta-Analysis. Otolaryngology–Head and Neck Surgery. 2025.

 

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